você não precisa ser poeta para isso
deixe no papel o que te segura em vão
fala da saudade que te vira do avesso
fala da cicatriz que queima a tua garganta
fala do aperto que tritura o teu desejo
fala da lembrança que distorce a tua visão
fala dos teus vícios, dos erros e precipícios
você não precisa ser poeta para isso
vamos, força, não deixe nada para trás,
prenda pra sempre todas as dores no papel
limpe a alma, esvazie a mente e vá com tudo
sinta seus pés a dois palmos do chão
se permita flutuar no universo, vagar por ai
você verá o mundo se expandir e colorir
verá flores brotarem em teu corpo
verá o céu inundar os teus olhos
verá rios correrem nas tuas veias
e as estrelas iluminarem o teu espírito pagão
vamos, coragem, você não precisa ser poeta para isso.Elisa Bartlett
O mundo sofre,
na mão dos que não sentem.
Não sentem a fumaça cinza,
a falta de estrelas no céu da cidade.
Não sentem o lixo na praia,
a falta de sombras, verdes na rua.
Não sentem a brisa, tocando o rosto,
devagar, quase tirando um cochilo.
Só sentem o ar condicionado,
a marca do carro, e as roupas,
com os seus corpos.
Atrapalhando o trânsito.
Não sentem, o mundo chorar,
de mansinho.
É só uma nuvem,
vai passar.
Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou
mistério
A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos
a sério.
salvem as baleias nas colunas do mar pérsico
salvem o alvoroço das garças ao amanhecer em amsterdam
que sacudam o extremo oriente em rachadas de lucidez
que cada bala atinja o fígado da intolerância, da insensatez
que jorrem espíritos de luz sobre os velhos mandamentos
que a fé reconduza a humanidade sob a claridade da paz
salvem todas as possibilidades de repensar e voltar atrás
Lá fora e no alto
o céu fazia
todas as estrelas que podia.Paulo Leminski
é que,
às vezes,
para ganhar poemas
precisamos perder
amores